dedos em chamas
Luzinda, tinha cabeças de fósforo na ponta dos dedos e cuidado para não se queimar. Tinha paredes que eram gavetas de sete cores em céu azul e em todas as gavetas velas de cera pálida. Com a noite e a erupção de estrelas coçava o indicador no vestido áspero pela água dura. A luz indicava o caminho para a gaveta mais próxima, acendia a vela de cera antes de se queimar e num sopro, que pede silêncio, a chama esfumava.
Sorte de quem teme o escuro ter um pavio em cada dedo.
Todas as noites a mesma rotina. Acendia o dedo e usava-o para encontrar a gaveta mais próxima. Segurava a vela com a mão de dedos apagados e acendia-a antes de se queimar. Derramava Três gotas de cera que a colavam ao chão de pedra polida. Duas horas depois usava a vela anterior para acender outra, que encontrava na gaveta seguinte.
Uma hora depois do sol nascer substituía as velas desfeitas no chão por inteiras nas gavetas e finalmente podia adormecer; a luz do sol espreitava pelo buraco da fechadura (sem chave) e pelas gavetas entreabertas.
Um olhar que ilumina qualquer sombra de um pesadelo recorrente.
Nas Duas horas entre velas reordenava as chaves que trazia ao pescoço. Com cuidado para não riscar a ponta de nenhum dos dedos, com cuidado para não se queimar. A primeira chave antes da segunda e a terceira depois mas sempre antes da quarta até à Ícaro exponencial de Ícaro enésima posição.
Sombrano, tinha cabeça de vento e fotossensibidade. Como todas as cabeças de vento, sibilava junto às paredes onde, durante o dia, pisava as sombras deslocadas pelo sol. De costas encostadas esforçava-se para evitar qualquer contacto com uma partícula de luz, nem que para isso precisasse de fintar o seu comprimento de onda.
Conhecia de cor as posições-hora, como um gnómon de um relógio que não gosta do que o alimenta e esgueirando-se de sombra em sombra mantinha-se desde o nascer do sol até ao seu alívio suspirado pôr.
Sombrano casou com Luzinda no crepúsculo matinal, onde o escuro ainda não desperta a escotofobia e o sol não queima o medo de quem precisa protector factor 50.
Encontravam-se dois crepúsculos por dia, desejavam - "Bons sonhos!" - a quem ia adormecer, (ao nascer a Luz e ao pôr a Sombra) e depois afastavam-se porque uma cabeça de vento é bem capaz de soprar as velas antes do tempo e a luz da chama faz pouca sombra para um fengofobico se esconder.
Difícil manter uma relação assim. Desencontrados.
Difícil dormir com velas acesas:
“- Às vezes tenho vontade de soprar pensamentos em cada vela.”
Difícil dormir com saltos, passos gigante, passos de bebé e 1,2,3 macaquinho chinês:
“- Às vezes tenho vontade de abrir todas as gavetas para cortar as sombras com focos de luz.”
Os D’s de difícil saltaram 4 letras e caíram nos I’s de insónias que apagaram o Amor e trouxeram menos “Bons dias!” nos Crepúsculos.
Luzinda, nas noites de velas, deixava as gavetas cada vez mais abertas o que atrasava ou adiantava o relógio de sol de Sombrano que agora não o conseguia saber de cor e Sombrano, precisava agora de saltar mais (directamente para o número 8 da macaca) ou dar passos de Adamastor.
Numa noite anterior ao primeiro crepúsculo do dia, Luzinda com olhos esbugalhados de raiva esbugalhou todas as gavetas antes do sol nascer e o sol não se limitou a espreitar. Infligiu queimaduras de 1º e 2º grau ao pobre do Sombrano.
Num dia anterior ao último crepúsculo, Sombrano retirou todas as velas das gavetas e guardou-as bem junto à sua cabeça de vento (único sitio à prova de chama) antes do sol se pôr.
Luzinda acendeu o primeiro dedo da mão direita para a escusada procura das velas nas gavetas e o primeiro dedo transformou-se em cinzas. Em desespero acendeu o segundo e o terceiro e o quarto e quando todos os dedos das mãos deixaram de ser perdeu o pavio, morreu.
Sombrano tem hoje velas que não acende e assombrado pela tristeza não precisa de sombras para se esconder.
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